Entrevistas Mágicas – Carta Mágica 7

filipa

 

E num instante chegou Setembro, o mês de (re)começar, de regressar à rotina mas também de novas oportunidades!!!

 

A nossa convidada deste mês chama-se Filipa Siopa Duarte e está ligada ao mundo da moda. Ex-aluna da MODATEX, estagiou com personalidades ligadas ao mundo da moda, como Nuno Baltazar,  encontra-se actualmente a trabalhar em Barcelona, no grupo Inditex.

 

E o que tem o mundo da moda a ver com recomeçar? Tudo!!! Depois de leres esta entrevista nunca mais o acto de comprar uma peça de vestuário, será igual!

 

1) Em primeiro lugar gostaria de te pedir para nos dares a conhecer um pouco de ti e do teu percurso profissional.
F: O meu nome é Filipa, sou designer de Moda, nasci nas Caldas da Rainha e actualmente vivo em Barcelona, cidade que adoro. Sou uma pessoa criativa, extrovertida, comunicativa e energética. Desde pequena que me sinto atraída pela beleza. A beleza da vida, a beleza da mulher, a beleza dos objectos, encontro beleza em todas as coisas e gosto de pensar que esse foi o motivo que me conduziu até à Moda e que motiva diariamente a ir trabalhar.
Depois do 12º ano ingressei na escola de moda MODATEX (mais conhecida por CITEX) para estudar desenho de moda. Lembro-me que nessa altura não sabia quase nada de moda, sabia unicamente que queria fazer algo extraordinário e viver noutra cidade, e entrar naquele curso pareceu-me uma boa ideia. Os 4 anos seguintes nesta escola revelaram-se os mais bonitos e os que me proporcionaram mais crescimento na vida: aprendi as bases da minha profissão, fiz amigos para toda a vida, participei em concursos de moda e ganhei asas para voar. Acho que foi aí que me apaixonei desenfreadamente e definitivamente pela Moda.
Depois de finalizar o curso, e nos anos que se seguiram, trabalhei com designers de moda como o Nuno Baltazar, e com diversas empresas, entre elas a SONAE (marca MO) onde estive 5 anos até aceitar o convite da Lefties e mudar-me para Barcelona. A Lefties é uma marca que pertence ao grupo Inditex e que tem sede em Tordera, Barcelona.
Na Lefties desde 2014,  dirijo actualmente uma equipa de designers, que é responsável por uma parte da colecção de mulher da marca.

 

2) Recordo-me de na tua adolescência, seres uma jovem irreverente que vestia de forma diferente. Muitas das vezes, só muito mais tarde, é que, o que tu usavas se mostrava vir a ser uma tendência da moda. Foi nessa altura que descobriste a tua paixão por este mundo?
F: Creio que nessa altura não era consciente da Moda… Essa paixão desenvolveu-se mais tarde quando já estudava Moda no Citex. Na adolescência eu era uma jovem cheia de entusiasmo, criativa, que precisava de extravasar a torrente de ideias que tinha dentro de mim e acho que a minha maneira de vestir era a minha ferramenta para experimentar, afirmar-me (eu considerava-me uma artista e gostava de dar nas vistas) e porque não simplesmente divertir-me! Se algumas das coisas que vestia mais tarde se transformavam em tendência, acho que seria por uma questão de instinto. Afinal o instinto, muitas vezes associado a criatividade e soltura da mente, é o que permite aos designers conceber algo hoje que o mundo vai querer amanhã.

 

3) Até há pouco tempo, a indústria da moda era considerada a segunda indústria mais poluente do mundo. Um dos principais fatores que contribui para este número é o elevado desperdício gerado. Segundo consta, por norma a quantidade produzida é sempre superior à que se estima vender, para que o valor unitário de produção seja mais baixo. É assim que efetivamente funciona a produção das coleções?
F: Esta é uma pergunta complexa. Efectivamente um dos graves problemas da indústria da moda é o desperdício, porque durante as últimas décadas, e ainda hoje se produz mais quantidade do que se vende. Isso prende-se com o facto de que as empresas têxteis – que são os produtores de matéria prima, as fábricas que fazem os tecidos, as fábricas que confeccionam as peças, as lavandarias e as marcas que produzem, vendem e distribuem – produzem em demasia, porque comprar mais quantidade baixa o custo, porque se produzem artigos que não se vendem, mas também, e muito importante porque o mundo continua a exigir oferta, quantidade e novidade de forma incessante.
Até vários anos antes estávamos habituados a ter 2 coleções por ano, e agora se as marcas não têm peças novas todas as semanas já ficamos desiludidos. Contudo, há esperança.
A indústria da moda é consciente do impacto que tem na saúde do planeta e no futuro das novas gerações e já está a actuar. Grandes grupos têxteis como Inditex, o grupo Kering e o LVMH entre outros, estão juntos e comprometidos com a moda sustentável. E não estão sozinhos, a este movimento unem-se cada vez mais designers, pequenas e médias empresas, e mais importante ainda – como motor – o próprio consumidor que começa a comprar com mais responsabilidade, principalmente as gerações mais jovens, obrigando desta maneira as empresas a actuar em conformidade.
Em linhas (muito) gerais: em 2021 as marcas usam cada vez mais matéria prima sustentável, reduzem o consumo de luz, água, componentes químicos e plástico, ajustam a quantidade de compra para evitar gerar stocks, tentam revender os stocks ou transformá-los (upcycling) e, em alguns casos produzir baixo pedido.

 

4) Há alguns anos aguardávamos a chegada da época de saldos para adquirir roupa a um custo mais baixo. Hoje em dia existe roupa acessível, mesmo fora da época dos saldos, muitas das vezes com pouca qualidade, ou seja, roupa que vai ser vestida meia dúzia de vezes (se tanto) e que depois deixa de estar em condições para ser usada. Que cuidados devemos ter para evitar comprar “roupa descartável”, a chamada “fast fashion”?
F: Eu acho que devemos comprar sempre com responsabilidade mesmo quando compramos numa marca de fast fashion, isto é, em primeiro lugar comprar roupa que sabemos que vamos tirar muito partido e em segundo lugar cuidar da roupa para que ela dure o mais possível.
Conselho: lavar a roupa a baixa temperatura (máx 30 graus) ajuda a manter a qualidade muito mais tempo! 😉

 

5) Li há dias que para “medirmos” a sustentabilidade de uma peça de roupa, devemos pensar na sua versatilidade, na sua conjugação com o resto do guarda-roupa e na qualidade, para permitir o uso centenas de vezes. Concordas?
F: Concordo plenamente. Eu só compro peças que sei que vou tirar muito partido porque combinam com muitas outras coisas do meu guarda roupa e porque vou continuar a querer usá-las nos anos seguintes. Como é que eu faço isso, considerando que eu sou uma apaixonada, vítima fácil da sedução da moda? Nunca compro por impulso, sempre que vejo uma coisa que gosto, volto para casa e estudo o resto do meu guarda roupa para averiguar as suas possibilidades e se vale a pena volto à loja. Às vezes também faço uma lista de peças que necessito, por exemplo: camisa popeline branca, blazer camel, etc. , e assim quando vou ás compras cinjo-me à lista e não compro coisas que não me fazem falta!

 

6) Outra forma de tornar a roupa sustentável, é optar pelo mercado da roupa em segunda mão, ou de trocas. Se para alguns esta opção é pacífica, para outros é algo ainda estranho e significa abdicar de comprar roupa atual e de estar na “moda”. É na verdade assim ou existem peças intemporais?
F: Eu adoro roupa de segunda mão. Desde que era pequena, que eu e a minha mãe, usávamos e transformava-mos toda a roupa de segunda mão que nos davam. Para nós sempre foi uma oportunidade não só de ter mais roupa, como também de ter roupa original e única. Atualmente, fico muito feliz de ver tanta gente a comprar e a vender roupa de segunda mão, porque lá está, não só é bom para o planeta como é bom para o nosso orçamento, já que por norma a roupa de segunda mão é mais barata.
Podemos encontrar à venda tanto em lojas físicas como em lojas online, roupa vintage e roupa de segunda mão. A roupa vintage para ser considerada como tal, tem de ter pelo menos, mais de dez anos de antiguidade e quase sempre são peças únicas, por outro lado a roupa de segunda mão pode ser perfeitamente atual, ser de segunda mão, ou pre-loved, significa simplesmente que teve um dono mas que agora está à procura de outro. 😉
Se te equivocas-te e compras-te algo que agora não vestes, faz-lhe fotos e põe à venda! Tanto eu como a minha mãe temos uma conta na app Vinted e vendemos roupa vintage e roupa em segunda mão.

 

7) Que estratégias/dicas recomendas para que seja possível ter um guarda roupa versátil, dentro das tendências, que não te faça sentir desintegrada (porque afinal a moda, é também uma questão cultural) sem sentires culpa por teres um armário com peças que não vestes, cheio de roupa “descartável” e ainda pensares “não tenho nada para vestir!”
F: Tenho várias estratégias que vou tentar resumir:

Cinge-te ao teu estilo: tu sabes quem és e sabes o que gostas. Nunca te vais sentir desintegrada se és fiel e segura de ti mesma.
Não tenhas medo de arriscar: este ponto está relacionado com o anterior. Podes ser só tu. Podes dar nas vistas. A vida é uma oportunidade maravilhosa e não vamos deixar de vestir algo com medo do que os outros vão pensar ou dizer.
Conhece o teu corpo e os teus pontos fortes: nem todas as tendências favorecem a toda a gente. Na hora de comprar, a tua prioridade é encontrar algo que acentue os teus pontos fortes e te favoreça. A tendência fica em segundo lugar.
Faz limpeza com (muita) regularidade: principalmente se tens um guarda roupa pequeno com três camisas em cada cabide. Dá-lhe voltas. Tira tudo para fora e ordena-o de uma forma diferente. Separa o que já não vestes há meses e o que já não te serve (o corpo está sempre a mudar, não é sinal para alarmes!) porque só está a ocupar espaço. Ordena a roupa de forma a que vejas mais peças antigas que continuam a ser bonitas e não te lembravas que existiam porque ao tê-las ao alcance da vista vais finalmente voltar a usá-las.
Cuida da tua roupa:  A roupa precisa de manutenção – há que coser um botão, há que levar à lavandaria, há que passar a ferro….
Compra com consciência e investe em básicos: o que falámos nas perguntas anteriores – analisa o teu guarda roupa e as tuas necessidades e elabora uma lista de essenciais. Investe em peças “fundo de armário” que te vão permitir novos looks com o que tu já tens e em peças intemporais que poderás usar muitos anos como um bom trench coat, uma boa mala, etc…
(Least, but not last) Pensa o que vais vestir com antecedência: podes pensar o que vais vestir no dia anterior ou podes fazê-lo durante o fim de semana com um pouco mais de tempo. Isto vai permitir que possas averiguar com calma todas as possibilidades do teu guarda roupa, fazer looks combinando peças antigas com outras mais atuais, usar acessórios inesperados para dar um toque diferente a algo que já vestiste muitas vezes, planear looks muito diferentes para usar ao longo da semana…

 

Eu bem que avisei, depois de tanta e tão preciosa informação, comprar uma nova (ou usada) peça de vestuário, será um acto de maior consciência, por nós e pelo planeta!

 

Para conhecerem melhor o trabalho da Filipa, convido-vos a visitarem os links abaixo.

 

Links:
Instagram Filipa: @filipasiopaduarte
Instagram FSD Vintage: @fsdvintage
Vinted Filipa: filipasiopaduarte
Vinted Ilda (mãe): vintage.mimi
MODATEX: https://www.modatex.pt/
LEFTIES: https://www.lefties.com/es/en/
INDITEX: https://www.inditex.com/about-us/who-we-are

 

Até breve,

 

Sandra Martins

CEO e Fundadora da Poção Mágica

 

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